sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Medos Estranhos

  Ainda quando eu era criança, certos medos eram tão absurdos que me são incompreensíveis até hoje. A maioria deles vinha da televisão. Eu ainda não entendia o mundo em que vivia e, portanto, era a ficção que mais me assustava, ao contrário de hoje, onde a realidade me parece, a cada dia, mais inóspita.

Lembro, por exemplo, quando a novela Vamp foi exibida pela primeira vez. Era divertido sentar no chão da sala para assistir as peripécias daqueles vampiros trapalhões, mas quando Vlad, magistralmente interpretado por Ney Latorraca, aparecia para dar o ar da graça, minha mente infantil entendia como perigo e eu corria para os fundos da casa, onde me sentia protegido de ver as atrocidades do vampiro mor. É claro que algo assim servia de diversão para os adultos da casa que achavam bonitinho. Hoje, revendo Vamp, percebo como aquele meu medo era infundado, uma vez que Vlad me parece dócil e, muitas vezes, mais humano que muita gente que conheço.

Tinha ainda o incrível Hulk, que meu pai adorava assistir no antigo Cinema em Casa, ou na Sessão das Dez, na época de ouro do SBT. Eu até gostava do filme e o assistia tranquilo. Meu coração só parecia sair pela boca quando o Bruce iria se transformar no monstro verde. Era algo que me fazia quase chorar. E, novamente, eu corria para os fundos da casa, onde ficava agachado, com as mãos sobre os ouvidos e cantarolando uma música qualquer, até que a transformação passasse e eu pudesse continuar assistindo ao filme. Sim, era só a transformação que me assustava. Vai entender!

Mas o mais surpreendente vem agora. Eu tinha medo, acreditem, do Chaves. Não do Chaves em si, mas do exato momento em que ele, Chiquinha ou Quico choravam. Eu não conseguia ver. Saia correndo para os fundos e fazia o mesmo ritual da transformação do Hulk. Ninguém entendia, mas eu realmente ficava apavorado. Tanto que eu preferia assistir apenas ao Chapolin. Demorou até que o Chaves entrasse de vez na minha vida. Traumas de infância ninguém explica, mas se alguém me obrigasse a ver uma cena onde um dos três choravam, eu também choraria... só que de medo.

Enfim, crianças são criaturas que ainda não conseguiram ser explicadas pela ciência. Seu modo de pensar e agir ainda é tão puro que foge a qualquer regra. Eu tive muito medo quando criança, mas meu maior medo agora é que justamente essa pureza se extinga e que os medos estranhos e inofensivos dêem lugares a temores reais e cada vez mais assustadores, inclusive, aos adultos.

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